Rastreio visual

Serviço de Pediatria do Hospital de São Marcos de Braga in “Educare.pt”

Idealmente, todas as crianças devem fazer um exame visual efectuado por um médico oftalmologista aos 3-4 anos e aos 5-6 anos. A visão é um sentido essencial para o adequado desenvolvimento da criança. É através deste sentido que a criança interage com os outros e com o mundo que a rodeia.
Quando um bebé nasce o seu sistema visual é muito imaturo. É necessária uma estimulação externa, através da luz e das cores, para que este sistema amadureça e se forme harmoniosamente a função visual. No período até aos 10 anos, designado “período crítico”, se existir uma condição externa adversa ou uma interferência nociva que impeça a normal maturação e não for corrigida atempadamente, há comprometimento definitivo da visão uni e/ou bilateralmente.
Surge assim a necessidade de um rastreio das patologias que afectam o desenvolvimento do sistema visual, adequado a cada idade. Os pediatras e médicos de família têm um papel fundamental na prevenção, no diagnóstico e no tratamento precoce das patologias relacionadas com a função visual.
A ambliopia é a falta de desenvolvimento da visão. Pode ser causada por tudo o que interfira com a formação de uma correcta imagem no olho e posteriormente no cérebro, isto é, o cérebro deixa de receber a imagem de forma correcta e por isso elimina-a, deixando de a “ver”. Geralmente acontece num dos olhos mas está provado que aumenta o risco de perda de visão também no olho contralateral. As causas de ambliopia são o estrabismo, os defeitos refractivos elevados (miopia, astigmatismo, hipermetropia) e a privação visual.

1. O estrabismo verifica-se quando os dois olhos se encontram desalinhados, apontando em direcções diferentes, ou seja, um dos olhos está desviado (“olho mau”) e o outro está centrado (“olho bom”). Se o “olho mau” estiver desviado para dentro (para a zona do nariz) diz-se que existe um estrabismo convergente; se, pelo contrário, estiver desviado para fora (para a zona dos ouvidos) diz-se que existe um estrabismo divergente. Em consequência deste desalinhamento ocular duas imagens diferentes irão chegar ao cérebro, passando este a ver só pelo “olho bom”, desprezando a imagem do “olho mau”, havendo assim perda de visão (ambliopia) do “olho mau”, se o estrabismo não for corrigido antes dos 6 anos.

2. Os defeitos refractivos elevados ou unilaterais significativos podem provocar imagens tão desfocadas no cérebro que este as rejeita, havendo perda da visão se não forem corrigidos a tempo.

3. A privação visual é a causa menos frequente de ambliopia mas a que causa ambliopia mais profunda. São exemplos: as cataratas (que podem surgir logo desde o nascimento ou posteriormente) e as quedas marcadas das pálpebras superiores a que se dá o nome de ptose palpebal.

O pediatra ou o médico assistente deve efectuar um exame simples à função visual de todas as crianças logo após o nascimento, às 6 semanas de vida e em todas as consultas de rotina. Este exame consta na inspecção de ambos os olhos para rastrear malformações oculares ou das pálpebras e, fazendo incidir uma luz sobre os olhos, na observação do reflexo da pupila e do reflexo da córnea.

O reflexo da pupila é vermelho e é o que se observa quando tiramos uma fotografia com flash e os olhos ficam vermelhos. Este reflexo deve ser simétrico, isto é, de igual cor, intensidade, claridade e sem opacidades nos dois olhos. Se os pais ou familiares notarem alguma alteração neste reflexo, por exemplo numa fotografia, devem com urgência contactar o pediatra da criança para que esta seja observada.
O reflexo da córnea serve para rastrear o estrabismo e é obtido pela incidência de uma luz nos olhos, a qual se reflecte como um pontinho branco em cada olho. Se não houver desvios dos olhos, estes pontos brancos são simétricos; pelo contrário, se existir desvio, o ponto branco aparece centrado num dos olhos (“olho bom”) e descentrado no outro (“olho mau”).
Até aos 6 meses de idade há uma imaturidade e, por consequência, uma descoordenação dos músculos que movimentam os olhos sendo por isso possível os bebés trocarem os olhos de vez em quando. Mas, se os pais ou familiares notarem um desalinhamento dos olhos a partir dos 6 meses, mesmo que descontínuo, ou se em qualquer idade o desalinhamento for grave e mantido, devem contactar o pediatra ou médico de família para que proceda a uma avaliação do estrabismo.
O pediatra ou médico de família deve também avaliar a acuidade visual da criança (avaliar se a criança vê bem ou não). Nos bebés é difícil avaliar objectivamente este parâmetro mas podemos analisar a capacidade de fixar e seguir um objecto, ou um rosto, e é ainda possível tapar um dos olhos alternadamente e observar a reacção do bebé. Se vir mal de um dos olhos vai certamente chorar ou ficar mais irritado quando tapamos o olho que vê bem. Existem escalas de medição da acuidade visual adaptadas a cada faixa etária. Aos 2-3 anos usam-se tabelas com desenhos conhecidos; aos 4-5 anos usam-se as tabelas dos E ou dos U, em que aparecem estas letras em diferentes posições; a partir dos 6 anos usam-se tabelas de letras ou de números.
Há crianças com risco de alterações visuais e por isso devem ser observadas por um médico oftalmologista. Dentro destes denominados grupos de risco estão os grandes prematuros, os bebés com complicações graves após o nascimento, as crianças com atraso no desenvolvimento ou doenças neurológicas, as crianças com artrite reumatóide ou diabetes mellitus, as crianças em tratamento prolongado com corticosteróides, etc.
Se há história familiar de retinoblastoma (tumor do olho), catarata ou glaucoma congénitos, distrofia retiniana, estrabismo, uso de óculos em criança ou história de alguma doença que afecte a visão, a criança também deve ser encaminhada para uma consulta de oftalmologia.
Se há algum sinal ou sintoma que cause dúvidas nos pais ou tutores sobre a visão da criança como não fixar os objectos, suspeita de estrabismo, movimentos anormais dos olhos, lacrimejar constante, intolerância persistente à luz, olho vermelho, piscar de olhos permanente, posição anormal da cabeça ou defeitos na aprendizagem, deve também ser observada por um médico oftalmologista.

Idealmente todas as crianças devem ter um exame visual efectuado por um médico oftalmologista aos 3-4 anos e aos 5-6 anos. No entanto, todas devem ser regularmente rastreadas em relação à sua função visual nas consultas de saúde infantil pelo pediatra ou pelo médico assistente.

Dária Rezende, com a colaboração de Almerinda Pereira, pediatra do Hospital de São Marcos, Braga in http://www.Educare.pt

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