Arquivo de Fevereiro, 2009

O poder da conversa

por Adriana Campos em educare.pt
Se efectivamente conversar é tão importante para o desenvolvimento dos mais pequenos, parece-me que teremos de tentar reflectir sobre outras questões: quando é que eles gostam de conversar e a propósito de quê.
Segundo um estudo encomendado a Sue Palmer pela The Basic Skills Agency, uma organização britânica independente de combate à iletracia, o desenvolvimento precoce da linguagem é muito importante para o bom desempenho escolar da criança. O estudo, realizado em Março de 2006, demonstrou que crianças que falam bem e sabem ouvir, também aprendem melhor a ler e a escrever. Daqui se depreende que as crianças pequenas precisam de falar e de ter quem converse com elas.
As conclusões deste estudo provocam, quase que obrigatoriamente, alguma inquietação junto dos pais, uma vez que, devido a empregos cada vez mais absorventes, à diminuição do hábito de partilhar as refeições em família e ao grande número de horas passadas solitariamente em frente à televisão, o tempo de conversação entre pais e filhos ficou inequivocamente reduzido.
Confesso que tenho vindo a reflectir sobre tudo isto e procurado encontrar estratégias para aumentar o tempo de diálogo com o meu filho, até porque a disponibilidade de ambos para a conversa nem sempre é coincidente. Se lhe pergunto o que fez na escola, na tentativa de iniciar uma conversa, já sei qual será a resposta: “Nada.” Por aqui já sei que não vou muito longe, pois a palavra “nada” e outras semelhantes acabam com qualquer tentativa de estabelecer um diálogo. Se efectivamente conversar é tão importante para o desenvolvimento dos mais pequenos, parece-me que teremos de tentar reflectir sobre outras questões: quando é que eles gostam de conversar e a propósito de quê. Pensando no meu filho, o período do dia em que ele mais gosta de falar é depois de lhe ler uma história, ritual que se repete diariamente antes de ele ir dormir. Tentar meter conversa é a estratégia dele para adiar ao máximo o momento de dormir. Embora este seja, na maior parte das vezes, o seu objectivo, não há dúvida de que essa vontade de conversar poderá ser aproveitada para atingir outros fins. Antecipar vinte minutos o momento de ele ir para a cama, pode ser uma boa estratégia para lhe dar mais tempo para falar, sem que seja necessário repetir vezes sem conta: “Agora é mesmo para dormir!”. Tenho a certeza de que a minha impaciência para que vá dormir rapidamente o tem levado a desistir de me contar as suas coisas. Esta conclusão ocorre-me, pelo facto de já me ter feito “confissões” importantes durante este período de tempo.
Já agora, vale a pena reforçar a ideia de que também devemos olhar para a leitura de histórias como uma oportunidade para trocar palavras e ideias, para comunicar e, desta forma, desenvolver o raciocínio lógico e o espírito crítico das crianças.
Porque é inquestionável que a escassez de tempo é algo que afecta efectivamente um pouco a vida de todos nós, temos mesmo de “fazer malabarismos” para encontrar e rentabilizar certos momentos de forma a pôr a conversa em dia. As viagens de carro podem ser momentos excelentes para falar de tudo um pouco: as coisas do dia-a-dia, os programas que eles gostam de ver, o que aconteceu durante o dia, no caso de gostarem de falar sobre isto. Ligar o rádio, pode, nesta perspectiva, ser um grande desperdício de tempo, se pensarmos que muito se pode dizer, durante estes momentos de deslocação, que aparentemente não têm grande utilidade em termos relacionais.
Importa ainda sublinhar que conversar não implica obviamente só falar, mas também mostrar interesse, escutar e dar a vez na conversa. Esta é também uma importante aprendizagem para a criança, pois o domínio das técnicas de conversação é essencial para quem tem de aprender. Crianças que não sabem falar ou ouvir vão tornar o processo de aprendizagem muito mais custoso.
Para concluir, parece-me que já terá gasto muito tempo a ler este artigo, por isso… vá já conversar com os seus filhos!


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